Divórcio de Pais com Filho Autista: como o Direito deve agir para proteger a criança
O divórcio já é, por si só,
um momento delicado para toda a família. Quando o casal tem um filho com
Transtorno do Espectro Autista (TEA), esse cuidado precisa ser ainda maior.
Isso porque a criança autista depende de rotina, previsibilidade e estabilidade
emocional, elementos que podem ser profundamente afetados pela separação dos
pais.
O
Direito de Família não ignora essa realidade. Ao contrário, ele oferece
instrumentos para que o divórcio aconteça sem comprometer o desenvolvimento e o
bem-estar da criança.
1- O melhor interesse da criança vem em
primeiro lugar
A
legislação brasileira estabelece que toda decisão envolvendo crianças deve
priorizar o seu melhor interesse. Esse princípio está na Constituição Federal,
no Estatuto da Criança e do Adolescente e também em tratados internacionais dos
quais o Brasil é signatário.
No
caso do filho autista, esse princípio ganha contornos ainda mais claros: o
divórcio dos pais não pode desorganizar a vida da criança, nem interromper
tratamentos, terapias ou vínculos essenciais ao seu desenvolvimento.
2- Divórcio consensual ou litigioso: qual o
melhor caminho?
Sempre
que possível, o divórcio consensual é o mais recomendado. Ele reduz conflitos,
preserva o diálogo entre os pais e evita que a criança seja exposta a disputas
judiciais desgastantes.
Mesmo
quando há acordo, o divórcio deve ser feito judicialmente, com a participação
do Ministério Público, já que há filho menor. O juiz analisará se as decisões
tomadas realmente atendem às necessidades da criança.
Quando
não há consenso, o divórcio será litigioso, e o Judiciário poderá solicitar
laudos médicos, relatórios escolares e até estudos psicossociais para
compreender qual organização familiar melhor protege o filho autista.
3- Guarda: mais do que dividir tempo, é
dividir responsabilidades
A
guarda compartilhada é a regra no Brasil, inclusive quando a criança é autista.
No entanto, é importante entender que guarda compartilhada não significa
dividir o tempo da criança em partes iguais, mas sim dividir responsabilidades
e decisões.
Em
muitos casos, a residência fixa permanece com o genitor que já acompanha as
terapias e a rotina da criança, garantindo estabilidade. A escolha do modelo de
guarda deve sempre considerar o que causa menos impacto emocional e sensorial à
criança.
Quando
a guarda compartilhada não atende às necessidades do filho, a guarda unilateral
pode ser adotada, desde que devidamente fundamentada.
4- Convivência com o outro genitor deve ser
adaptada
Crianças
com TEA costumam ter dificuldade com mudanças bruscas. Por isso, o regime de
convivência precisa ser flexível e adaptado, respeitando limites, horários e a
capacidade de adaptação da criança.
Visitas
progressivas, horários previsíveis e possibilidade de ajustes futuros costumam
ser soluções mais adequadas do que regras rígidas.
5- Pensão alimentícia vai além do básico
A
pensão alimentícia para filho autista deve considerar, além das despesas
comuns, os custos específicos do tratamento, como:
* terapias
multidisciplinares,
* medicamentos,
* acompanhamento médico,
* transporte para
atendimentos especializados.
O
valor deve ser fixado observando o equilíbrio entre as necessidades da criança
e a possibilidade financeira dos pais.
6- Plano de parentalidade: uma ferramenta
essencial
O
plano de parentalidade é um documento que organiza a vida da criança após o
divórcio. Ele pode prever:
* rotina diária,
* acompanhamento
terapêutico,
* divisão de despesas
extraordinárias,
* forma de tomada de
decisões importantes.
Nos
casos envolvendo filhos autistas, esse plano se torna ainda mais relevante,
pois traz previsibilidade e segurança para todos.
7- O papel do Direito é proteger, não
apenas decidir
O
divórcio encerra uma relação conjugal, mas não encerra a parentalidade. Quando
há um filho com autismo, o cuidado precisa ser contínuo, conjunto e
responsável.
O
Direito de Família deve atuar com técnica, mas também com sensibilidade,
garantindo que a criança continue sendo amparada, respeitada e protegida em
todas as suas necessidades.
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